terça-feira, 23 de junho de 2026

Xeque-mate

Em tempos enviaram-me um texto num pretexto de que era a autobiografia e que àquele texto muito pouca gente teve acesso. Nele, a visão de vida do autor era comparada ao xadrez. Questões de ver a vida a preto e branco, de manipulação das peças e de como as torres e rainhas eram as peças que mexiam com ele. Para ele, as torres representam a sua maior vulnerabilidade emocional. São as raras exceções no seu círculo de relações por quem ele nutre um cuidado genuíno, funcionando como uma espécie de refúgio à sua visão rígida e dicotómica do mundo. Ao lado destas pessoas, ele despe-se de qualquer frieza e adapta-se. inteiramente às necessidades delas, assumindo o papel que for preciso para lhes dar conforto. Se no passado ele tentava desmultiplicar-se e ser tudo para todos, hoje essa dedicação absoluta está guardada apenas para quem ele considera uma "torre". Em contrapartida, as rainhas encarnam o desejo, a liberdade e a paixão avassaladora. São figuras imponentes e autónomas que ele abdica voluntariamente de controlar ou manipular. Ele vive estes romances de forma intensa e impulsiva, preferindo ignorar o facto de que toda a paixão tem um prazo de validade. O seu objetivo idealizado é viver o momento para que fiquem boas recordações e, acima de tudo, conseguir que o fim do romance não signifique um adeus, mas sim uma evolução — onde a paixão efémera da rainha dá lugar à ligação estável e duradoura de uma torre. E eu, em pouquíssimo tempo fui, citando as suas palavras "Por alguma razão .. és rainha e torre... Assim do nada... Mas só seres torre... Vou estar sempre aqui... Para o que precisares". Já eu, a vida fez-me passar por demasiadas provações, demasiadas frustrações e repetidos renascimentos. Sempre os encarei de forma totalmente sozinha, sem pedir ou aceitar ajuda de quem fosse. Cada vez que sentia a mínima conexão a minha vida tinha todas as cores e fazia disso a minha força para lutar pela minha individualidade e pelo mundo. Para mim a vida não é um jogo, seja de xadrez, poker ou outro qualquer. Para mim a vida é tal como no taoísmo, yin e yang. Sombra e luz, frio e quente, água e fogo. Não é possível conhecer um sem experimentar o outro. E como tal, sempre reservei a minha sombra para mim sem nunca a partilhar com ninguém. É uma sombra dura, despida de qualquer sentimento. Diria até uma sombra puramente matemática em que não existe e não é permitida qualquer equação emocional. Um pouco como inteligência artificial. Sempre me agarrei à esperança e fé que algo maior existia, uma força que desse alguma explicação ao que passamos nesta vida. Era uma forma de conseguir parar a emoção que doia e de ter forças para superar o que magoasse e saísse do fundo do poço. O dilema atual é que tudo se perdeu. Já não acredito que existe temperança depois da tempestade. Mas o mais sério foi mesmo a criança interior e a minha forma de ver a vida que se perdeu. Embora me digam que isto vai passar, a vida ensinou-me que não. Não foi de todo a primeira desilusão amorosa, mas foi a mais dura. A que me custou mais caro. A que me fez quebrar promessas que fiz a mim mesma. De todos os casos de envolvimento emocional que tive, foi esta que me custou o meu eu, a minha essência. A minha tendência em relacionamentos era anular-me em prol do outro. Nesta não! Nesta pude ser sempre eu: mulher e criança forte e vulnerável. Independentemente de tudo sentia-me totalmente eu. Nunca anulei qualquer parte de mim. Para além de uma amizade e cumplicidade existia química e desejo. Ansiava pelos bons dias bem dispostos e pela companhia em alguns jantares. Fui consciente que era sem expectativas, sabia que não ia ser uma relação para além de amizade colorida enquanto durasse. Mas também acreditei no que foi dito, que era uma "amizade para a vida" e que "nunca te vou deixar na mão". A vida tem disto, acreditar no impossível. Longe de mim alegar inocência ou paixão não controlada. Acreditei de boa fé. E a boa fé é apenas uma "desculpa" da sociedade para meios legais. É uma frase-tipo que o ser humano usa para desculpar os erros que comete. Mas de acordo com os valores que fui criada, a minha realidade sempre foi tentar ser melhor a cada dia que passa. Segundo o catolicismo, religião que foi escolhida por outros para me educarem, devia dar sempre a outra face, ajudar os mais necessitados, ser humana e sentir empatia pelo próximo. Na realidade prática da vida, é nestas bases que a sociedade foi crescendo e evoluindo. Mas chegámos ao ponto que a sociedade é podre. O ser humano nada mais é que um animal que perdeu o contacto com o instinto, um animal egoísta, narcisista e calculista. Se analisarmos a natureza que nos rodeia, os mais fracos são sempre derrotados pelos mais fortes. E as emoções, sentimentos e crença que podemos ser melhores é a nossa maior fragilidade. Ainda assim não deixamos de ser humanos. Não desculpa para sermos melhores mas justificação para sermos piores. E o que realmente dói a quem quer ser melhor, é chegar à conclusão de que somos meros peões num jogo de xadrez. Aquelas peças que são sacrificadas em prol dos outros e facilmente manipuláveis. As que têm menor liberdade de fugir da realidade e que sofrem sempre as consequências das decisões erradas que tomam para não deixarem na mão os outros. Mas do que vale uma vida a colocar as vontades e necessidades dos outros em primeiro lugar, quando no fim estamos sozinhos no lodo a lutar contra a merda que nos rodeia? Correndo risco de plágio, já dizia Mark Manson na "Arte subtil de dizer que se foda" ninguém é especial. Se todos somos especiais à nossa maneira, então ninguém é realmente especial ou extraordinário. O que me leva à triste conclusão de que nada existe para além de um regime científico de concepção natural. Nascemos para procriar e morrer. Não somos assim tão importantes para continuar a viver e deixar legado. Inevitavelmente houve situações que foram deixadas na história da humanidade de grandes pensadores, políticos e pessoas com visão diferente daquela partilhada no exato momento em que existiram. Mas como costumam dizer "a história acaba sempre por se repetir", o que me leva a crer que o ser humano pouco ou nada aprende para evoluir. A evolução natural do universo já vem com atraso. A era glaciar para acabar com a humanidade já tarda. Pode ser que da próxima vez a natureza se encarregue de fazer melhor. Mas não acreditem que a vida foi sempre má. Tive muitas pessoas genuinamente boas que passaram na minha vida. Mais se calhar do que merecia. Ainda assim, as más que passaram... foram genuinamente más, destruidoras, mentirosas, calculistas, abusadoras. Acredito que toda a ação leva a uma reação, não fosse esta uma lei da física que nada mais é a tradução lógica da observação da natureza. Também acredito piamente na teoria do caos: que o bater de asas de uma borboleta pode levar a um furacão no outro lado do mundo. Na prática, foram precisas décadas para aprender aquilo que tentam ensinar desde a primária: que a vida é meramente matemática e física com ajuda de reações químicas. E que tudo o que não seja aceite pelo método científico, não existe. Mas focando na química, a desculpa mais irracional para um ser que se diz racional. Não me refiro à química que atua em átomos. Refiro-me à desculpa dada a outro ser humano para justificar uma situação totalmente injustificável. Aquela química que dizem que existe para justificar um interesse de aproximação e nebular a visão de uma pessoa que foi educada como eu, a pensar no melhor da humanidade e que tudo vai sempre melhorar. Esta desculpa tão indesculpável que leva a melhor pessoa a voltar para o fundo do poço, que desta vez está mais fundo. A desculpa para os eternos apaixonados da vida. Até ao dia em que essa visão amorosa da humanidade é ferida mais uma vez. E desta vez de uma forma totalmente irreversível. A conclusão a que chego é que nada é como apregoam. A vida é meramente uma passagem entre criação e destruição genética. Se assim é, qual o motivo que prende a esta realidade tenebrosa e destruidora? Bem no meu caso, o meu cão. Que ainda assim me vai partir a última peça que me mantém humana. Porque invariavelmente a natureza com a sua capacidade de criação e destruição ainda dá força de sobrevivência ao que de pior existe. A própria natureza já sente o mal que lhe é feito, ainda assim nem com avisos de vulcões, tsunamis, temperaturas inacreditáveis o ser humano consegue aprender. Acredito que a longevidade que está a ser dada ao ser humano é meramente pérolas a porcos. Qualquer outro animal irracional deveria sobreviver mais tempo que esta espécie devastadora e parasita. Toda e qualquer regra social que foi criada e promulgada entre o ser humano só o afastou da simplicidade da vida e criou lutas pela sobrevivência. As minhas lutas admito que são internas, a nível mental e emocional. Inundada de pensamentos e de “e se’s". Mas deparei-me que, ao longo de 41 anos de existência, tudo está errado. Perda de tempo para mim e para os outros. Hoje, a 21 de junho de 2026, destruo tudo o que me foi ensinado, abdico de toda a humanidade que tinha. É um decreto! Faça-se como tem de ser. O bom que existia deixou de existir, a vontade de competir e querer mais desapareceu. Autêntico autónomo apenas a sobreviver enquanto o meu cão precisa. Foi o preço mais alto que paguei por acreditar no bom das pessoas. E inevitavelmente foi e magoa fazer um decreto daqueles. Mais ainda quando deixa só de ser decreto oral e passa a ser uma forma de estar, uma realidade prática. Porque tudo muda, a natureza muda, de acordo com a física até a água muda de acordo com os estímulos que tem. E acordar com esperança que as coisas vão mudar e correr bem é só uma perda de tempo. Inutilidade de tempo e energia que se perde. Porque no final de tudo, as ações têm reações. E não fazer nada perante o problema é uma opção de ação. Mesmo que isso afete terceiros e suas prioridades. Outra palavra que deve ser revista: prioridades! Afinal o que é uma prioridade? Na prática a prioridade é apenas uma forma lexical que foi trazida para dar a falsa perspectiva de importância. Quando uma pessoa vive de acordo com não dar importância a nada, a palavra prioridade soa a uma falsa hipocrisia na expectativa de criar no outro um sentido de importância que não existe. Se é possível existirem pessoas que não se importam com nada a não ser a satisfação básica de alimentar o seu enorme ego, então porque não somos todos assim? Porque motivo é esta sociedade que rege o planeta humano a pedir que se construam elos emocionais? Ou até mesmo alianças? Porque efetivamente levar uma pessoa até ao desgaste máximo e fazer com que ela quebre promessas que ela fez a si própria é de uma maldade genuína. Nem mesmo tudo o que foi a criar o medo do inferno consegue ser tão cruel. Mas pelos vistos as lições que temos de aprender enquanto vivemos neste planeta são tão macabras que levam a que o puro fique totalmente intoxicado. E desta vez, apesar de ter lutado com todas as forças que me eram possíveis, de uma maneira totalmente injusta e dolorosa, foi conseguido o objetivo final: a perda total de humanidade, empatia e preocupação com outro ser humano. Depois de todos os sonhos e promessas ao longo dos anos terem sido destruídos, o que realmente sobra? No meio disto tudo apenas lamento as pessoas que passaram pela minha vida que foram de uma forma ingénua bondosas, empáticas, preocupadas. Aquelas que estão ali a dizer: dava-te um abraço, és mais forte do que pensas, és completa, és luz, não mereces isso, és uma lutadora! A essas, ainda me sobra uma réstia de bondade para pedir desculpa. Para dizer: “apostas te no cavalo errado"! O que neste momento ainda não consegui assimilar é o facto de ter de ter forças ainda uma última vez para concretizar no papel a quebra da minha última promessa feita e acreditar que em poucos segundos tudo o que pudesse ter sido bom vai ficar ofuscado com o mau que é feito. Porque sim, era efêmero mas era único e fenomenal. E tudo o que foi dito, sentido, passado vai desaparecer em segundos e apenas ficará a última imagem: como foi possível chegar a este ponto? Entenda-se que em momento algum assumi fosse o que fosse de sentimentos, fossem eles de dor ou de amor. E a única coisa que admitia era a total honestidade. Sabia que não era para sempre e que a cada dia que passava era uma conquista por ter mais um dia de conversa. Mesmo que fosse conversa de circunstância. Mesmo que as questões “está tudo bem?" ou afirmações de “preocupo-me contigo" só fosse realidade e sentidas quando ditas por mim. Conversa de ilusão, falta de interesse ou até mesmo genuínas migalhas para adiar o inevitável eram totalmente evitáveis. Partindo da premissa que “já está no papo" fiz tudo em prol da possível amizade, mesmo a preto e branco, sendo totalmente evitável qualquer tipo de engano como se houvesse genuína preocupação. A única coisa que esperava, que é um traço do ser humano, é a total honestidade e sinceridade. O que “borrou a pintura" foi efetivamente a falta de transparência, honestidade e sinceridade. Porque uma pessoa genuinamente boa prefere sempre a dor do “não te quero mais" do que a deslealdade nua e crua e consequente afastamento sem motivo aparente. Antes de hoje, até diria que saiu uma coisa boa desta história toda, o copo meio cheio. Esse resultado está aqui, para ser lido. Porém, hoje digo que não existe sequer copo para estar meio cheio ou meio vazio. Limito-me a deixar registado todo e qualquer desabafo que ainda assole a possibilidade de existência de alma. Porque na realidade, e apesar de o teor do envolvimento ter sido “sem expectativas" sempre existiu uma: a de total clareza dos factos tal qual eles são e tal qual estão no momento atual. Ao longo das diversas relações da minha vid, as frases que mais ouvi foram: “és uma amiga maravilhosa", “ficas para a vida", “não te quero magoar", “estou aqui para o que precisares, sempre". E tudo isto puras mentiras! Sempre as mesmas, sempre ditas da mesma forma. Após análise cientifico-emocional cheguei à conclusão que a culpa nunca é do outro, é sempre minha! Porque era boa demais, porque sempre respeitei o que mais ninguém respeitou. Acima de tudo o maior erro: respeitei a falta de respeito por mim. Derivado às minhas decisões da vida, que me levaram a uma licenciatura em linguística, hoje compreendo que nenhum processo anatómico, seja ele de prosódia, fonético ou sintático surge por surgir. É tudo uma representação de algo que já existe quimicamente a acontecer no cérebro. Por isso digo, a crueldade não é feitio. É um processo químico que existe na deficiência do cérebro humano. Mais grave que qualquer tipo de autismo, perda de memória ou Parkinson, a escolha natural de determinados cromossomas deveria ser extinta ainda antes do primeiro choro pós ventre da mãe. Porque sim, ser mulher não é fácil. Nunca o foi nem nunca será! Já ser homem… É uma questão bem mais simples. É saber desligar a emoção e mentir com todo o cálcio existente no corpo humano. Sim porque para além de dentes existem os ossos e são muitos. Todos eles com um ponto em comum: cálcio! Homem que não consiga fazer isso, é comummente designado como fraco. Acredito que a escolha genética tenha dado o poder ao sexo feminino de gerar vida apenas por um motivo: são muito mais que mente e consciência. Admito que durante muito tempo questionei o porquê do taoísmo dar o simbolismo de frio, sombra e feminino ao mesmo lado. Foi à poucas décadas que deixei de questionar e apenas aceitei. Hoje posso dizer com 100% de segurança que entendi o porquê, pelo menos do meu ponto de vista. A lua é mutável a nível visual, o sol não. O quente aquece e estraga, o frio também provoca queimaduras mas conserva. A energia masculina é tal e qual como o sol e quente: atrai, mostra o que existe mas corrompe e estraga ao mesmo tempo que dá a sensação de plenitude. Enquanto que a energia feminina não mostra mas está lá, como a lua. Pode parecer insensível mas conserva, protege. Não é religião, é filosofia. É observável a olho nu para quem tenha interesse e tempo para parar e olhar a natureza ao redor. É comprovável através de método científico. É pura lei natural do universo. Daquelas que não se podem quebrar. Das que a consequência não existe. Todas as leis em que existe consequência, não são leis absolutas e naturais. Não são verdades universais. E agora sobrevivo apenas com as verdades universais. Porque tudo que o ser humano tocou desvirtuou, estragou, envenenou. Deveria ser obrigatório no crescimento do ser humano, ter mais de um mês a observar uma comunidade de lobos selvagens. E a conviver diariamente com eles, sendo um elemento totalmente externo à comunidade. Pegar nos adolescentes e enviar para o meio da mata, apenas com duas ou três instrumentos essenciais à sua sobrevivência. Em pleno território de fronteira de comunidades de lobos. Algo que sempre quis e que não me foi permitido. Algo com que sempre me identifiquei. Algo que sempre ansiei. Daí a minha maravilha por cães, o mais perto do instinto canídeo que possa ser aceite pela sociedade. Daí a minha vontade de proteger o mais puro dos seres domésticos. Daí ter adotado o meu mais que tudo que agora corre riscos por péssimas decisões tomadas por mim. Não sou digna de tal companhia tão ilustre e pura. Chego à conclusão que o ser humano não é digno de nada. O ser mais disruptivo que existe em toda a existência universal. Milhares de anos de evolução natural para em poucas décadas ser destruído pela mesma mão que foi escolhida para continuar a evoluir. Se nem mesmo a natureza acerta nas escolhas que faz, como poderá um simples mortal fazer a escolha mais certa? A descrença na humanidade que invade a minha consciência leva-me a tornar mais robótica, mero uso do hardware criado geneticamente e impiedoso. E assim, tomarei de imediato as diligências necessárias para garantir a plenitude da única coisa que não me faz desistir e que me mantém minimamente humana. A única coisa que ainda me prende ao lado emocional. À minha última razão de ser. E apesar de todas as tentativas de desligar desta realidade indigna, ainda assim, por menor expectativa que exista, a possibilidade de concretização parece que favorece os audazes. Porque por muito que se lute contra tudo e todos, para os demais que não acreditam existe sorte. Motivo que frustra qualquer comum mortal que algum dia tenha acreditado no que quer que fosse. Talvez ainda não tenha conseguido chegar ao derradeiro final de desinteresse neste planeta. Talvez ainda me falte algo para escavar as fundações do meu poço e tudo desabar novamente. Seria de esperar que neste momento nada mais desabasse porém é preciso afundar um pouco mais no lodo para terminar qualquer ato de humanidade. É uma crueldade derradeira antes de tornar alguém totalmente despido de emoção. Ainda assim abre inúmeros pontos de vista totalmente novos que anteriormente eram rejeitados e que agora até parecem desculpáveis. Não que tudo seja desculpável, mas acredito que muitos cenários reais que parecem macabros têm um motivo latente para a sua execução. Desta vez vou fazer diferente. Em vez de deixar o exoesqueleto, vou apenas ficar com isso e largar tudo o resto. De certa forma hei-de deixar marca. Pelo pior dos motivos pois sempre que sempre que tentei deixar marca pelos melhores motivos, foram todos excluídos por maldade e egoísmo. Não me reconheço de todo. Mas será assim tão importante reconhecer-me? Se todos os meus sonhos foram destruídos por terceiros, porque me devo preocupar em tentar seguir com a vida? Se apenas sirvo para nalgum momento da vida dos outros ser a luz que mostra a esperança, a corda que os tira do fundo do poço, o trampolim para os fazer retornar a acreditar, porque devo continuar? Se o que peço em silêncio não é compreendido e nem sequer merece a atenção suficiente para ser questionado, porque haveria eu de me voltar a colocar em situação que me destrói enquanto repara o restante? Devia ter dado ouvidos à criança de sete anos que viu mais do que o meu adulto alguma vez irá ver. Crescer é uma armadilha. Crescer é apodrecer. Crescer é só desiludir. Essa mesma criança que em tempos encontrava em meditações e que agora quando procuro não está em lado nenhum. Essa minha guia com uma imensidão de sabedoria que se perdeu. O meu lado mais belo, puro… Até agora sempre defendi que a ignorância é uma benção. Na realidade não é. A única coisa mais perto de benção que se pode ter é a consciência de que tudo é podre e serve um único propósito: o propósito do eu. Quem é narcisista ganha. Quem pensa nos outros perde sempre. E a comparação entre ganhos e perdas, não pela conotação que estão associados mas pela veracidade de categorização de tais conceitos, quem perde, perde sempre mais do que quem ganha. A perda é de custo maior. E este custo não é material, é um custo muito mais profundo. É o custo da humanidade própria que caracteriza cada um de nós como ser único. Nunca tive mau perder, também nunca fui viciada em jogos de azar mas desta vez apostei tudo e mais alguma coisa no cavalo errado. Não por saber que nunca iria ser o que no fundo esperava que um dia acontecesse mas por acreditar. E o conceito de crença é dos piores erros que nos é passado. Algures no tempo disseram-me “nunca acredites. Desconfia sempre. Questiona!" Pergunto-me o que me fez esquecer esta premissa tão importante e sábia. Será que foi porque deixei de ser a João e passei a ser a Maria? Será que o facto de me habituar ao que não gostava, como tão basicamente a forma de me tratarem pelo meu nome, me mudou para um ser estupidamente sensível e credível? Se assim é, que morra a Maria! E já agora que morra a João que não faz sentido existir. Que morra tudo o que me faz ser diferente de um animal selvagem. Que morra todo e qualquer desejo e vontade. Que apenas fique a carcaça. Que sirva para alimentar os predadores que sempre o desejaram. Que sejam congratulações todos aqueles que tinham no fundo, no inconsciente a esperança de um dia me verem desistir. Hoje é dia de cantarem e celebrarem a vitória que o objetivo foi conquistado. Mais do que uma copa do mundo. Mais do que o fim da guerra e a eterna paz. Mais do que a conquista de todos os sonhos. E rever todos os momentos em que dei mais do que era espectável para no fim acabar por me partir mais uma vez é meramente doloroso. No Japão pratica-se o Kintsugi. Criação fenomenal que torna a quebra mais valiosa e bela. Acredito que se eu fosse uma peça de porcelana, neste momento apenas sobrava o que unia o artefacto inicial após as várias quebras. E quando a peça original se perde, então o que sobra não torna a peça em algo único, torna-se apenas tentativas absurdas de devolver o que era insubstituível. Digo de consciência mental, realista e sem réstia de esperança e emoção que até o que unia as peças se perdeu. Detritos de areia são mais reais neste momento do que aquilo que sacrifiquei. Hoje acordo e apenas tenho dois modos. O que me faz chorar ou desistir de tudo e o que apenas está vazio. E este vazio é estranho, desconfortável. Mas ao mesmo tempo leve. Não sentir é a maior leveza que existe. O vazio, sombra, frio, escuro, inércia de movimento são o meu conforto atual. Aquele lugar por onde já tanto passei e lutei para sair. Desta vez não. Desta vez não vou reagir emocionalmente. Nem o luto me permito fazer. Apenas apagar da existência e memória tudo o que me levou a ser o que sou. De acordo com a teoria do big bang, no que respeita à criação de matéria, à medida que a temperatura baixava, os protões e os neutrões conseguiram juntar-se para formar os primeiros núcleos atómicos. De acordo com esta premissa, até o que aparentemente não existe se expande. Talvez por algum motivo, em diversas fases da minha vida, a mensagem que fui esquecendo e das minhas expressões favoritas “de nihilo nihil”! No fundo creio que já sabia de cor onde terminaria e ainda assim apostei cegamente na crença de que a humanidade poderia ser melhor. De que me valeu acreditar na humanidade se esta provou não ser merecedora do que fosse. E ainda assim, a dicotomia de acontecer o que não queres! E tudo o que realmente desejas… Bem é apenas isso, um desejo. Como um pedido a um cometa. Que se analisarmos cientificamente é apenas gelo volátil, poeira e rocha. Podemos considerar que o que nasceu desta situação foi o retomar um blog esquecido no tempo. De alguns momentos que foram pequenos desabafos para continuar o caminho. E saber que nem todas as dores estão ali. Existem dores que foram apagando a luz. E mesmo assim, a finale, o brilho era imenso. Hoje creio que até um mero pirilampo sozinho brilha mais do que eu alguma vez voltarei a brilhar, se voltar. O que antes era um xeque-mate, atualmente é um desabafo.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Evolução natural

O passado já lá vai. O futuro é incerto e ainda está para ser vivenciado. O que nos mantém com força de viver é o presente. Sempre em busca do futuro e nunca esquecendo o passado. Como tal, chegou o momento de voltar ao desabafo permanente e partilha do constante que existe nesta experiência a que chamo vida. Ao longo destes últimos anos entre o último post e o actual muita coisa se passou. Algumas boas e outras menos boas. . É natural algumas aprendizagens e conhecimentos irem ficando pelo caminho, outras surgirem. E nesta "rotina" de evolução natural, ou envelhecimento como alguns o intitulam, muita "bagagem" de conhecimentos vai sendo transformada. Uma das maiores aprendizagens que neste momento considero ter é a de viver o dia-a-dia tal como ele é. Não lamentar o passado nem ansiar o futuro, pois tudo o que foi feito no passado foi feito exactamente como deveria ter sido e da melhor forma que o poderíamos ter feito na altura e tudo o que virá será aí, nesse momento, que iremos lidar com a maior e melhor forma que saberemos fazer. Por isso a todos os que estão aí, ou que poderão vir a estar eventualmente, desejo um feliz presente, no aqui e agora, seja lá onde o aqui for e o agora no momento que for. Nunca esquecer que o presente é apenas um breve e subtil instante entre o passado e o futuro. Por isso aproveitem a vida efémera que se propuseram a experiênciar e sintam a vida no seu todo, seja ela boa ou menos boa.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Amor, Amar e ser Amado

A natureza do amor é espiritualmente pura. A razão para o ser é porque na realidade não existe sentimento algum mais verdadeiro e compreensível.
Ser amado é ser verdadeiramente completo e realizado em todos os momentos. É saber comunicar sem gesticular ou falar. É um transmitir puro e simples da nossa essência.
Saber amar é compreender os sinais que nos são transmitidos, é um antecipar as palavras e acções, é sermos completos com aquele que amamos, é pôr a vida em causa no momento certo e proteger o nosso ente amado.
No fundo todos somos capazes de amar realmente alguém na nossa vida mas seremos capazes de nos deixarmos amar realmente?
Saberemos mesmo saber amar aquele que dizemos ou apenas a empatia e o carinho são tão fortes que nos deixam iludidos?
E porque amar não é difícil mas requer entrega total e atenção constante saberemos mesmo ceder a nossa alma, vida, e pensamentos a nossa outra metade?